Sabe quando você chega num lugar já se preparando pra ser o único preto da rua, e a cidade te surpreende logo no primeiro dia? Foi assim comigo em Londres. Eu encontrei muito mais gente preta do que imaginava, e não era qualquer encontro: eram uns negrões e umas negronas estilosos demais, de casaco bem cortado, tênis impecável, café na mão, atravessando a rua apressados rumo ao escritório. Parecia cena de filme, sabe? Daquelas que a gente cresceu vendo, só que quase sempre com outros protagonistas.
Aquilo me pegou de um jeito diferente, e não é impressão minha. Segundo o governo britânico, no Censo de 2021, 13,5% de quem mora em Londres se declarou negro. É uma presença que vem de longe, de gente do Caribe e da África que ajudou a construir a cidade que a gente vê hoje, e que dá pra sentir na rua, na comida, na música e no jeito de vestir.
O primeiro dia
Pra quem não sabe: eu fui pra Londres fazer intercâmbio aos 31 anos. Sim, depois dos 30, e foi o meu primeiro destino na Europa. Se você acha que passou da idade pra esse tipo de coisa, fica o recado: não passou.
Cheguei por Heathrow, e Londres é um mundo, né? Tem trem, tem metrô, tem opção pra todo lado. Eu peguei o metrô e fui direto pra Bloomsbury, bairro central, pertinho da estação de King’s Cross, onde eu ia ficar. Foi sair na rua pra me encantar. Parecia que eu tinha entrado numa dessas séries que a gente só assiste do sofá da sala, e de repente era eu ali, andando por uma cidade que mistura gente do mundo inteiro com uma tradição que está em cada fachada.
E foi nesse mesmo primeiro dia, andando à noite sem muito destino, que eu cheguei na Tower Bridge. Toda iluminada, enorme, refletida no Tâmisa. E eu chorei. Não por ser a Tower Bridge, mas por não acreditar que eu estava ali, vendo aquilo com os meus próprios olhos. Tudo em Londres era muito grande pra mim, e naquele momento caiu a ficha de onde eu tinha chegado. A ponte é de 1894 e, se você voltar de dia, dá pra subir até as passarelas lá no alto, que têm piso de vidro. Mas se puder escolher, faz como eu: conhece ela de noite primeiro.

A Londres dos filmes
Dizem que em Londres chove todo dia. Comigo, choveu por alguns segundos, só. E eu fiquei feliz, porque estar em Londres e não pegar chuva nenhuma era quase como não ter ido. Rito de passagem cumprido.
A dica clássica pra quem quer o Big Ben é acordar cedo e pegar tudo vazio. Funciona… em parte. Você ainda vai encontrar fila de gente querendo a mesma foto, porque parece que todo mundo teve essa ideia. Mas vale. A foto é icônica, e quando você olha a grandeza do relógio e os detalhes da arquitetura, se perde um pouco naquela Londres que eu só via nas cenas do Idris Elba correndo de um lado pro outro pra salvar alguma coisa ou alguém. Ah, e uma curiosidade pra levar pra mesa do bar: Big Ben é o nome do sino. A torre se chama Elizabeth Tower e faz parte do Palácio de Westminster, sede do Parlamento britânico.


Bem do lado fica a Abadia de Westminster, a igreja das coroações da monarquia britânica, que segura o olhar por um bom tempo mesmo que você nem entre. No meio do caminho, em Whitehall, vale parar na Horse Guards: os guardas reais ficam montados na entrada, de túnica vermelha e capacete dourado, firmes enquanto todo mundo em volta tira foto. Tem até placa avisando que os cavalos podem dar coice ou morder, então foto sim, mas sem chegar perto demais. Dali dá pra seguir a pé, cruzando o St James’s Park, até o Palácio de Buckingham. É por esses parques que passa o Memorial Walk da Princesa Diana, uma caminhada de uns 11 km marcada por placas no chão, que atravessa quatro parques reais e passa à vista de Buckingham e do Palácio de Kensington, onde ela morou. As salas do palácio só abrem pra visita em algumas épocas do ano, principalmente no verão de lá, então confere as datas no site oficial antes de ir.


Londres é assim: tem gente que ama, tem gente que odeia. Eu fico no primeiro time, é uma das minhas cidades favoritas da Europa. Tudo ali parece pronto pra foto, dos bairros mais urbanos aos mais tradicionais, dos cartões-postais da monarquia às áreas mais afastadas do centro.
Camden, Harry Potter e Notting Hill
Camden é outra Londres: alternativa, barulhenta, cheia de gente diferente. O Camden Market reúne mais de mil comerciantes independentes na beira do canal, com roupa, arte e comida do mundo todo. Foi ali que eu comi o famoso fish and chips, no Poppies, uma casa tradicional que leva o apelido do fundador, o Pat “Pops” Newland, que começou a trabalhar com fish and chips ainda criança, no leste de Londres. O atendimento foi ótimo, tranquilo, com atendentes muito educados. E o prato? Minha nota é 5. Pra quem é brasileiro, falta tempero, e falta muito. Mas é aquela experiência que você precisa viver pelo menos uma vez, nem que seja pra voltar contando que achou sem sal.

Eu não tive uma vibe museu nessa viagem, mas como fã de Harry Potter, passei por alguns cenários importantes da saga. O mais clássico é a Plataforma 9¾, na estação de King’s Cross, com o carrinho de malas “atravessando” a parede. Como fica do ladinho de Bloomsbury, foi fácil encaixar no dia a dia, e foi legal demais.
Também fui conhecer Notting Hill, com as casinhas coloridas e a Portobello Road. Fiquei triste ao ver que a livraria que ficou famosa no filme hoje é uma loja, mas é isso, coisas de lugar turístico. O que pouca gente sabe é que Notting Hill também é um bairro de história caribenha: é ali que acontece todo fim de agosto o Carnaval de Notting Hill, nascido da comunidade caribenha da cidade e hoje uma das maiores festas de rua da Europa.
Se virando como londrino
Andar no ônibus vermelho de dois andares foi muito legal. Sobe, senta lá na frente do andar de cima e vê a cidade passar como se fosse passeio turístico, pagando passagem de ônibus comum. E foi ali também o meu primeiro choque com o inglês britânico. Eu tentava falar, a moça tentava me entender, e… nada. Eu repetia, ela não entendia de novo. Faz parte. Depois de uns dias o ouvido acostuma, e você até começa a achar o sotaque bonito.
E se tem um lugar pra ver esses ônibus em ação, é Piccadilly Circus à noite. Os telões gigantes acesos, a esquina lotada de gente, os ônibus vermelhos passando um atrás do outro… é uma das esquinas mais famosas de Londres, e de noite ela fica ainda mais com cara de cartão-postal.

Londres é cara, então eu vivi de meal deal: nos supermercados e nas farmácias, você monta um combo de sanduíche, lanche e bebida por um preço fechado, e o almoço está resolvido sem estourar o orçamento. No metrô e no ônibus, dá pra pagar por aproximação com cartão ou celular, sem comprar bilhete, e os valores estão no site da TfL, a empresa de transporte da cidade. E separa pelo menos um fim de tarde pra andar sem destino: o pôr do sol em Londres é lindo, e é de graça.
Sobre onde ficar, eu recomendo Bloomsbury: é central, perto de King’s Cross e de várias linhas de metrô, e dá pra fazer muita coisa a pé. Se o orçamento estiver apertado, vale olhar hostel, quarto em casa de família ou Airbnb em bairros bem servidos de metrô, mesmo que um pouco mais afastados. Morar perto de uma estação vale mais do que estar no centro exato. E antes de embarcar, lembra que brasileiro não precisa de visto pra turismo, mas precisa da ETA, a autorização eletrônica de viagem do Reino Unido. Pede só pelo site oficial do governo britânico, porque tem site que imita o oficial e cobra mais caro. O resto do básico está no nosso guia pra cruzar a primeira fronteira.
Se eu fosse desenhar seus primeiros dias, faria assim: um dia inteiro em Westminster, com Big Ben bem cedo, a Abadia, o parque e Buckingham, tudo a pé. Outro pra Camden e King’s Cross, com fish and chips no almoço e a Plataforma 9¾ no fim da tarde. Mais um pra Notting Hill e os parques. E a Tower Bridge, claro, de noite, de preferência logo no começo da viagem.
Bora?
Londres é pra quem quer um primeiro destino na Europa onde dá pra se virar com o inglês (mesmo apanhando do sotaque), pra quem é fã de série, filme e Harry Potter, e pra quem está pensando em intercâmbio e acha que passou da idade. Eu cheguei achando que ia ser o diferente da rua e saí de lá com a certeza de que pertencia àquele lugar tanto quanto qualquer um daqueles que passavam apressados com café na mão. Achei o fish and chips sem sal, me emocionei numa ponte de noite e voltaria amanhã.
Quer desenhar a sua Londres, de intercâmbio ou de férias? Me chama que a gente planeja junto.
O mundo sempre foi nosso.
