Já sabe como é cantar Tom Jobim pra um ônibus inteiro de gringo? Eu sei.
Saí de Liverpool bem cedo, num passeio de um dia pelo norte do País de Gales que comprei pelo GetYourGuide. Foi tudo muito tranquilo: é aquele tipo de roteiro difícil de fazer sem carro, e ali você só senta, olha pela janela e deixa a estrada fazer o resto. A guia era um amor, daquelas que viram amiga até o fim do dia.
Mas na primeira parada a guia avisou que a gente voltava quinze pro meio-dia, e eu entendi meio-dia. Voltei com atraso, e a regra do grupo era clara: quem atrasa, canta. Me pediram Beatles, claro, a gente tinha saído de Liverpool, né? E eu soltei um “Garota de Ipanema”. A vergonha foi do tamanho do castelo. Depois disso, nunca mais me atrasei.

E por falar em castelo, foi em Conwy que eu conheci o primeiro da minha vida. O Castelo de Conwy foi erguido no fim do século XIII pelo rei inglês Eduardo I, em poucos anos, como parte da conquista de Gales, e hoje é patrimônio da UNESCO. A cidade inteira ainda é abraçada por uma muralha medieval cheia de torres, e dá pra caminhar por cima dela olhando os telhados de um lado e o rio do outro. As placas são todas em galês e inglês, um lembrete de que a língua local resistiu a tudo isso.

Lá dentro, torres enormes, a bandeira com o dragão vermelho lá no alto e janelinhas de pedra que emolduram a paisagem como um quadro. Ao mesmo tempo, tem uns buracos sinistros de masmorra que dão um frio na espinha, sabe? É bonito e assustador na mesma medida. A entrada no castelo é paga à parte, e vale, nem que seja só pra subir nas torres.

A parada que mais me encantou, porém, foi a das montanhas, dentro do Parque Nacional de Eryri (Snowdonia), no Vale de Ogwen. É um vale esculpido por geleiras, com paredões de rocha, trilhas de pedra entre samambaias e um lago escuro e parado, o Llyn Ogwen.

Na beira d’água, uma casinha de pedra solitária, uma árvore já dourada e a neblina engolindo o topo dos morros. O Vale de Ogwen foi uma das locações de House of the Dragon, a série que se passa antes de Game of Thrones, e dá pra entender o porquê.

A gente no Brasil está acostumado com montanha, cachoeira e verde a perder de vista. Mas o clima ali é outra coisa. O céu baixo e cinza, o vento gelado, aquele silêncio que parece de outro planeta… E o frio cortante do outono, junto com as folhas amarelas caindo pelo caminho, dava um charme especial a cada cena. Não é uma paisagem mais bonita que as nossas, é uma atmosfera completamente diferente. Então leve casaco, cachecol e um tênis firme, porque as trilhas de pedra podem estar molhadas.
No caminho de volta ainda passamos pelo Aqueduto de Pontcysyllte, projetado pelo engenheiro Thomas Telford e inaugurado em 1805, também patrimônio da UNESCO. São mais de 300 metros de canal suspenso a quase 40 metros de altura sobre o vale do rio Dee, e até hoje passam barcos por ali. Você caminha num corredor estreito, com a água de um lado e, do outro, só o vale lá embaixo, todo pintado de verde, amarelo e laranja. Sobe um frio na barriga, e a vista compensa cada passo.

Se você está em Liverpool e tem um dia livre, bora. Se puder ir no outono, melhor ainda. Só preste atenção no horário de volta de cada parada, ou prepare seu repertório. O mundo sempre foi nosso, até no meio das montanhas galesas.
