Por que a Argentina é a primeira viagem internacional perfeita

De braços abertos no Obelisco, no centro de Buenos Aires

Você já deixou de tirar o passaporte porque achou que viagem internacional não era pra você? Eu quase deixei. Tinha medo de não entender a língua, de me perder, e tinha também aquela pergunta que muita gente como eu carrega na mala antes mesmo de fazer a mala: como será que vão me receber lá?

Quem me tirou da inércia foram meus colegas de trabalho. Insistiram, deram dica, praticamente me empurraram pro aeroporto. Fui pra Argentina em 2022, voltei em 2023, e hoje digo sem pensar duas vezes: se é a sua primeira vez fora do Brasil, começa por lá.

O medo ficou no Brasil

Sobre aquela pergunta, a resposta que eu tive foi boa. Nas duas viagens, me trataram como turista, como cliente, como gente. Não dá pra prometer que vai ser igual pra todo mundo, em lugar nenhum do mundo, né? Mas foi o que eu vivi, e isso muda tudo na cabeça de quem está saindo pela primeira vez.

A língua também deixou de ser bicho de sete cabeças logo no primeiro dia. Português e espanhol são primos próximos. Um “gracias”, um “¿cuánto cuesta?” e boa vontade dos dois lados resolvem quase tudo.

O que eu não esperava era o presente maior da viagem: as pessoas. Fiquei em hostel e dividi mesa, quarto e conversa com chilenos, uruguaios e argentinos. Foi ali, entre uma conversa e outra na cozinha do hostel, que caiu a ficha: a gente mora numa das regiões mais bonitas do mundo. A América Latina é nossa, e é linda vista de dentro.

Uma Buenos Aires que também é nossa

Muita gente imagina Buenos Aires como uma cidade europeia perdida na América do Sul. Ela tem esse lado, claro, mas a história é bem mais rica. No período colonial, pessoas africanas e seus descendentes eram uma parte grande da população da cidade, principalmente em bairros como San Telmo e Monserrat. O candombe, ritmo de tambor de raiz africana, nasceu dessa presença e ainda pulsa nas duas margens do Rio da Prata.

Essa parte da história nem sempre aparece nos roteiros, mas está nas ruas pra quem presta atenção. Andar por San Telmo sabendo disso é outra viagem: a gente pisa num chão onde os nossos também deixaram marca.

Meus lugares favoritos em Buenos Aires

Não é lista de “imperdíveis”. São os lugares que eu indicaria pra um amigo, e por quê.

Güerrín: a pizza que nem a Itália superou

Sim, eu já comi pizza na Itália. E não, não superou. A Güerrín funciona na Avenida Corrientes, a avenida dos teatros, desde a década de 1930, e é herança direta dos imigrantes italianos que moldaram a comida portenha. A pizza é alta, de massa fofa e queijo generoso, e muita gente come de pé no balcão, do jeito portenho. Vai sem pressa de mesa e com fome de verdade.

Para quem: quem quer comer onde os portenhos comem, sem cerimônia.

El Preferido de Palermo: o jantar que não sai da minha cabeça

Íntimo, romântico, com cara de casa antiga. O El Preferido abriu em 1952 como almacén, aquele armazém de bairro com balcão de bebidas, num casarão rosa na mesma quadra onde Jorge Luis Borges passou a infância. Hoje é restaurante, mas guardou a alma: madeira escura, potes de azeitona no balcão, mesas próximas.

O balcão do El Preferido de Palermo, com garrafas até o teto e ervas secas penduradas
O balcão do El Preferido: luz baixa, garrafas até o teto e a escada de madeira com o nome da casa.

E a salada de rúcula com parmesão. No papel, parece simples. Eu ainda penso nela, anos depois.

Milanesa com batatas e a salada de rúcula com parmesão no El Preferido
Ela, a salada de rúcula com parmesão, ao lado de uma milanesa que também merece respeito.

Para quem: um jantar a dois ou aquela noite em que você quer se dar um presente. Reserva antes.

Café Tortoni: medialunas e churros com doce de leite

Aberto em 1858 na Avenida de Mayo, o Tortoni é o café mais antigo da Argentina. Escritores, músicos de tango e artistas fizeram dali a sala de estar deles, e o salão de vitrais e lustres ainda carrega isso. Pede medialunas e churros mergulhados no doce de leite. É doce em cima de doce, e é exatamente esse o ponto.

Placa de mármore na fachada do Café Tortoni, homenagem aos 160 anos, 1858–2018
A placa na fachada lembra: 1858, lugar de encontro de grandes personagens da cidade.

Para quem: quem gosta de história com café da tarde. Costuma ter fila na porta, mas anda.

Vitrine com bandejas de medialunas douradas em Buenos Aires
Medialunas de manteiga em fila: a vitrine que faz qualquer dieta tirar férias.

MALBA: encontrar o Abaporu longe de casa

Tem uma emoção estranha em atravessar a fronteira e dar de cara com o Brasil pendurado na parede. O Abaporu, que Tarsila do Amaral pintou em 1928 e que deu origem ao Movimento Antropofágico, faz parte do acervo do MALBA, o Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires. O museu inteiro é dedicado à arte da nossa região, o que conversa com tudo o que essa viagem me ensinou.

Dica: o quadro às vezes viaja pra exposições. Confere no site do museu se ele está em casa antes de ir.

Puerto Madero: um chope, mesmo no inverno

O antigo porto da cidade virou um bairro de calçadões, galpões de tijolo restaurados e bares na beira d’água. Eu fui no frio e tomei chope do mesmo jeito, de casaco e sem arrependimento. Bar não falta, e o fim de tarde ali, com a Puente de la Mujer ao fundo, vale a caminhada.

Para quem: quem quer desacelerar no fim do dia.

Como se mover pela cidade

Buenos Aires se faz muito bem de metrô (o Subte), ônibus e a pé. Pra usar o transporte público, você precisa do cartão SUBE, que se compra e recarrega em quiosques e estações. É o jeito mais barato de circular e, de quebra, de ver a cidade como quem mora nela.

A noite começa tarde, e vale esperar

Primeiro aviso: em Buenos Aires ninguém sai pra balada às 22h. Os boliches, como eles chamam, só enchem depois da meia-noite, e a festa vai longe. No começo parece estranho. Na segunda noite, você já está jantando às 22h como quem nasceu lá.

O melhor jeito de viver isso é com a galera do hostel. Gente que você conheceu no café da manhã vira companhia de noite, e algumas dessas pessoas viram amizade que continua depois da viagem. Foi assim comigo. Sair com desconhecidos que se tornam importantes é uma das coisas mais bonitas de viajar sozinho, e o hostel facilita isso como nenhum hotel.

Se joga, com cuidado: combina a volta antes de sair, anda em grupo e usa táxi ou aplicativo de madrugada.

Ficou mais caro, mas ainda vale

Sem rodeio: em 2022 e 2023 a Argentina estava baratíssima pra quem chegava com real. Hoje a conta é outra, e a viagem pesa mais no bolso. Ainda assim, pelo que você come, vê e vive, continua valendo cada centavo. Só pede um pouco mais de planejamento com o câmbio.

O que eu recomendo:

  • Western Union pro dinheiro vivo. Você faz a transferência pro seu próprio nome pelo app, ainda no Brasil, e saca os pesos numa agência em Buenos Aires, com documento. Antes de fechar, compara a cotação do dia com a do cartão: quando a diferença é pequena, nem compensa andar com muito dinheiro.
  • Banco Nación no aeroporto, se precisar de pesos logo na chegada: os postos de Ezeiza e do Aeroparque trocam pelo câmbio oficial.
  • Cartão de crédito ou cartão internacional, como o da Wise, pra restaurantes e compras maiores.
  • Evita comprar pesos no Brasil, trocar em casa de câmbio de rua e sacar em caixa eletrônico com cartão brasileiro.

Câmbio na Argentina muda rápido. Confere a cotação na semana da viagem antes de decidir quanto levar de cada jeito.

Para quem é essa viagem

Pra quem nunca saiu do país e quer começar perto, sem fuso, com voo curto e língua parecida. Pra quem vai sozinho ou sozinha e quer fazer amigos pelo caminho. E pra quem precisa ver, com os próprios olhos, que o mundo lá fora também tem lugar pra gente.

O que eu faria diferente

Eu teria ido antes. Teria passado mais tempo em San Telmo procurando as marcas da história negra da cidade. E teria planejado o câmbio com mais calma, porque hoje isso faz diferença no orçamento.

E se der, estica até o Uruguai: o bate-volta pra Colônia do Sacramento rende um segundo carimbo no passaporte em um dia só.

Bora?

Se os meus colegas não tivessem me empurrado, eu ainda estaria achando que viagem internacional era coisa pros outros. Então considera este texto o seu empurrão. A Argentina foi meu primeiro carimbo no passaporte, e não foi o último.


Se você quer desenhar essa primeira viagem e não sabe por onde começar, me chama. A gente planeja junto.

O mundo sempre foi nosso.

Consultoria Trip Preta

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