Intercâmbio depois dos 30: não existe hora certa, existe a sua hora

José Pedro ao lado da estátua dos Beatles no Pier Head, em Liverpool

Você acha que passou da hora de fazer intercâmbio?

Eu fiz o meu aos 31 anos, com o meu próprio dinheiro, oito anos depois de ter colocado esse sonho na cabeça. Foi um mês em Liverpool. Um mês que valeu por dez anos. E antes de contar como foi, preciso te contar de onde eu saí.

Eu cresci numa cidade do interior de São Paulo com menos de 10 mil habitantes. Família pobre. Minha mãe é colhedora de laranja e me criou sozinha, mãe solo. Digo isso com muito orgulho, porque tudo o que vem depois nesta história começa nela.

Estudei a vida inteira em escola pública. Era uma criança imaginativa, daquelas que se metem em tudo: grêmio estudantil, Olimpíada de Matemática, de Física, o que aparecesse. Numa cidade pequena, sem muita perspectiva, era assim que eu enxergava o mundo lá fora.

Foi ali, nesse lugar onde quase ninguém falava em sair do país, que nasceu o meu sonho de fazer intercâmbio.

Na universidade, eu achei que finalmente ia acontecer. Mas os programas de intercâmbio e os incentivos foram sendo descontinuados, um atrás do outro, e a oportunidade simplesmente não chegou até mim. O sonho não morreu. Foi pra gaveta.

A vida seguiu. Passei num programa de trainee e minha carreira deslanchou no mundo corporativo. E aí veio a virada que muda tudo: pela primeira vez, o dinheiro estava na minha mão. Diferente do passado, agora eu conseguia pagar.

O estalo foi simples e urgente. Eu precisava ir. Precisava destravar o meu inglês e precisava ter essa vivência. Nada me segurou: nem família, nem trabalho, nem a minha própria cabeça. Aos 31 anos, oito anos depois do plano original, eu decidi que era agora.

Foi mais de um ano e seis meses de planejamento, juntando com o meu salário. O curso de inglês com acomodação custou cerca de R$ 11 mil por quatro semanas.

Por que só um mês? Por causa do trabalho. Usei as minhas férias e ainda negociei pra adiantar férias do ano seguinte. Não era o intercâmbio de um ano que eu imaginava aos 20 e poucos. Era o intercâmbio possível. E o possível, quando a gente vive inteiro, vira gigante.

Se você está achando que um mês é pouco, guarda essa frase: não é o tamanho da viagem, é o quanto você se entrega a ela.

Desde que saí do Brasil, eu não acreditava que estava indo viver esse sonho. Parecia que eu estava num episódio roteirizado. Foi o voo mais longo da minha vida até então.

A chegada em Londres foi tranquila, mas o que me marcou foi a sensação de estar dentro de uma série de TV. Coisas e construções que eu só tinha visto pela tela estavam ali, na minha frente.

E eu já cheguei querendo viver tudo. Deixei a mala no hostel, tomei um banho correndo e fui pra rua. Aprendi a andar de metrô no primeiro dia. Passei dois dias em Londres antes de seguir pra Liverpool, onde ficava a escola.

Os prédios históricos do Pier Head, em Liverpool, ao entardecer sob céu nublado
O Pier Head, em Liverpool, no fim do dia. A cidade que virou casa por um mês.

A escola era muito boa. Na minha sala, eu era o mais velho. Mas bastava olhar pros corredores pra perceber que idade ali não era barreira: tinha gente de 60, 65, 70 anos fazendo intercâmbio. E muito brasileiro também, porque a gente está em todo lugar.

Sala de aula da escola de inglês em Liverpool, com livro sobre a mesa e professora na lousa digital
Sala de aula em Liverpool: livro na mesa, caderno aberto e de volta ao lugar de aprendiz.

Eram mais de 20 nacionalidades na escola. A maioria jovem, mas com muita gente madura buscando os propósitos mais diversos: crescer na carreira, se descobrir, começar uma vida nova ou simplesmente aproveitar a vida depois de aposentado.

As melhores pessoas que conheci nessa viagem foram justamente as mais velhas. A Val foi uma das mais queridas. Ela vive a vida, vai, se joga. E esse talvez tenha sido um dos maiores aprendizados do intercâmbio: pegar e me jogar.

Morei num apartamento com quarto individual, dividindo cozinha e casa com taiwaneses, japoneses e árabes. Fazer mercado fora do Brasil já é uma aventura por si só; dividir a cozinha com tanta cultura diferente é outra. Era intercâmbio até na hora de esquentar a janta.

O inglês destravou de verdade fora da sala de aula. Foi na hora de conversar com gente de outras nacionalidades, na convivência da escola, no apartamento e, principalmente, nas viagens que fiz sozinho. Quando não tem ninguém pra falar por você, você fala.

Durante o intercâmbio, eu saía sozinho por aí: Manchester, Chester, Edimburgo, na Escócia, e o Norte do País de Gales. Eu amo viajar sozinho. É quando eu me coloco nos lugares e entendo como as coisas funcionam, como eu vivo, o que eu gosto e o que eu não gosto, como eu me sinto num lugar que não conheço.

José Pedro sorrindo numa selfie de mochila nas costas, numa rua de prédios de tijolo
Eu, a mochila e mais uma cidade pra descobrir sozinho.

Além do inglês, o que mais me deixa feliz nesse tipo de viagem é o autoconhecimento. Os perrengues foram ótimos. O cansaço também. Tudo era diferente: o ar, o clima, as ruas, as construções, as pessoas, o jeito de se vestir, a comida. E eu queria tudo.

Teve uma cena que se repetia todo dia e que, pra mim, resume o intercâmbio inteiro.

Mais de 12 anos depois de sair do ensino médio, e alguns anos depois da faculdade, eu pegava a minha mochila e saía pra escola. Sem nenhuma outra responsabilidade além de aprender. Indo encontrar algo novo, desconhecido, que eu sabia que ia fazer toda a diferença na minha vida.

Rua de casarões de tijolo com janelas brancas e poste antigo sob céu azul
Casarões de tijolo, céu azul e o caminho de todo dia.

É muito diferente se colocar de novo nesse lugar de aprendiz depois dos 30. Você já tem cargo, contas, rotina, um nome construído. E de repente é só você, uma mochila e a vontade de aprender. E fez. Fez toda a diferença.

Quando voltei, percebi que aquele mês tinha mudado a minha vida em tudo. A primeira coisa foi a vergonha de falar inglês, que ficou em Liverpool. Eu destravei.

Não vou fingir que voltei fluente. O inglês ainda é uma grande caminhada, e eu continuo estudando até hoje. Mas a diferença apareceu rapidinho no concreto: passei a participar de reuniões em inglês, principalmente agora que atuo mais na área de tecnologia.

Um mês não te dá um idioma pronto. Te dá coragem pra usar o que você tem. E isso, pra quem passou anos travado, vale mais do que qualquer certificado.

E se você está pensando em fazer o seu, eu começaria pela pergunta que mais muda tudo: por que você está indo? Carreira, autoconhecimento, recomeço ou puro prazer, o objetivo define a escola, a cidade, a duração e o tipo de curso, e é o intercâmbio que tem que se adaptar a ele, não o contrário. Hoje existem escolas e turmas pensadas pra quem é mais maduro, e vale considerar, mas eu não teria medo da sala mista: conviver com várias gerações foi uma das melhores partes da minha viagem.

Depois vem a cidade, e é aí que mora uma das maiores economias. Com o mesmo dinheiro que paguei por quatro semanas em Liverpool, em Londres eu faria só duas. Cidades menores ou fora da capital costumam render mais semanas pelo mesmo orçamento, e de quebra você vive uma rotina mais local. Pra organizar tudo isso, procure uma agência séria. Uma boa agência ajuda em tudo, da documentação ao que levar na mala, e dá pra negociar as formas de pagamento, o que faz muita diferença pra quem está juntando com o salário. No trabalho, a conversa sobre férias tem que começar cedo. Eu adiantei férias do ano seguinte pra fechar o mês, e ajuda muito mostrar pra liderança o que a empresa ganha com você voltando falando inglês com mais segurança.

Fachada de tijolos do pub The Pumphouse, no Albert Dock, com os rostos dos Beatles pintados na janela
The Pumphouse, no Albert Dock. Em Liverpool, os Beatles estão em todo canto.

A documentação também pede atenção. Brasileiros não precisam de visto para cursos de inglês de até 180 dias no Reino Unido, mas precisam de passaporte válido e da ETA, uma autorização eletrônica de viagem pedida online (fonte). As regras mudam, então confirme sempre no site oficial do governo britânico antes de comprar a passagem. E, já que o dinheiro é seu, use tudo o que estiver a seu favor: alerta de passagem, programa de milhas e um seguro viagem bem pesquisado.

Lá, cada dia conta. Chegue com o básico revisado, porque quanto melhor o seu nível na chegada, mais um mês rende. Escolha a acomodação pelo que você quer viver: o quarto individual em apartamento compartilhado me deu privacidade e, ao mesmo tempo, uma cozinha cheia de culturas, mas casa de família e residência estudantil são outros caminhos, cada um com seu jeito. E nos dias livres, viaje sozinho. Trem e ônibus entre cidades são onde o inglês vira obrigação e o autoconhecimento acontece, e passagem comprada com antecedência costuma sair mais barata.

Pra quem tem 30, 40, 50 anos e acha que perdeu o momento: não existe hora, e não existe passado pra aquilo que você quer viver. Dá pra fazer intercâmbio com 80 anos. Dá pra aprender coisa nova em qualquer idade. Enquanto a gente está vivo, não tem essa de achar que passou da hora. E isso não é utopia. Eu vi com meus próprios olhos, numa escola em Liverpool, gente de 70 anos fazendo intercâmbio.

E se eu pudesse voltar no tempo e falar com aquele menino da cidade do interior, filho da colhedora de laranja, eu diria uma coisa só:

Vá. Só vá.

Tudo o que você fez, tudo o que tentou até aqui, tudo o que vai tentar e não vai conseguir, e tudo o que vai tentar e vai conseguir, vai te levar pra onde você quer chegar.

O mundo sempre foi nosso. Às vezes ele só chega um pouco depois.

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